Perguntei ao olhar, pela primeira vez para aqueles olhos de escudo, decidida a conhecer este homem que há tempos é o foco de minhas emoções.
A pergunta era para eu entender o que alguém tão crítico como ele fazia naquele bairro de gente muito pouco crítica. Ele me respondeu: ‘Ah! Uma garota que conheci na rede e para a qual eu telefonei ontem estacionou o carro e me abriu a porta’. E complementou: ‘Você sempre pára o carro para um estranho entrar?’
Ele é assim, engraçado, irônico, perde o amigo, mas não perde a piada. Faz-me rir até perder o controle. Me fez rir ontem como há muito eu não sorria. Sorrimos muitas vezes.
Há uns dois anos eu o acompanho à distância com uma admiração que faz tempo não sinto por ninguém.
Ele é um homem do mundo: maduro, seguro, realizado profissionalmente. Faz o que bem entende do seu nariz, um pai especial, um ser que desenvolveu uma casca grossa que lhe serve de proteção. Por dentro continua um menino lindo do interior sem, felizmente, manter o provincialismo diante da vida. Ele desperta meu lado bom, me faz desejar cultivar o que há de melhor em mim.
Nem sei direito como este afeto virtual se construiu. Talvez pelos mails trocados, revelações comedidas, uma conversa ou outra no msn quando ele me faz rir, me emociona ou me irrita. Ele sempre é telegráfico e eu, como sempre, uma correia sem freio falando mais do que desejo. Eu alimentando-o com discussões que considero centrais ao país, ele trazendo à tona outras histórias e muitos pontos de vista, ensinando-me a ler o mundo pelos seus olhos.
Recentemente ele escreveu um comentário que me preocupou. Ao lê-lo escrevi de imediato querendo saber sobre sua saúde, se estava tudo bem. Como sempre, ele brincou e não levou a sério minha mensagem angustiada. Caramba! Seria ele igual à Carol, a amada do pequeno João Pedro, que se envergonhou diante da ‘multidão estúpida’, recusando a margarida americana colorida? Será que não sabe receber um carinho?
Meu humor andava arisco e fiquei brava com seu tom brincalhão diante de minha preocupação. Calei-me. Passado um tempo ele me escreve: ‘Sinto que você está sumida, sinto que você está sentida, bj’.
Acho bom que ele sinta minha ausência e reaja. Eu também sou mulher vivida, segura do que sou e do que sinto.
Resolvo responder sobre a verdadeira importância dele em minha vida. E, de novo, ele é comedido e me oferece seu ombro amigo. Tenho vontade de lhe dizer que desejo muito mais que seus ombros largos, que quero seu abraço, seu beijo, seu olhar, seu carinho e sua imensa capacidade de me fazer rir das coisas do mundo. Digo tudo isso de alguma forma e sei que ele entende que minha assinatura é endereçada a ele.
Passado mais algum tempo, finalmente, resolveu me ligar, dizendo estar preocupado comigo. De algum modo, foi maravilhoso descobrir que mesmo ele não precisando de mim, tenha desejado saber de mim. Sei lá o que falei ao telefone. Creio que não completei uma única idéia. Pela primeira vez eu não queria falar, queria ouvi-lo, senti-lo. Estava com uma imensa enxaqueca, mas no pouco tempo que nos falamos antes do almoço, milagrosamente a dor se dissipou. Ele consegue despertar em mim a capacidade de minha própria cura, pelo riso.
Eu sei o que seus olhos guardam. Porque sei que eles foram educados ao longo de seus quase cinqüenta anos a observar detalhes, eles se dirigem para onde poucos desejam direcionar o olhar. Eu estou decidida a descobrir todos os cacos neles acumulados. Estou disposta a ouvir, longe da multidão ruidosa, todas as palavras caladas.
Eu espero que ele não se intimide com a minha determinação. Creio que não, nisso também ele é diferenciado, não precisa ter medo do amor e do cuidado. Ele é dado à experimentação e sabe de nossa condição provisória neste mundo. Acho que para ele está bem claro que não temos tempo a perder e que temos direito de viver o que nos cabe.
Ele queria almoçar perto da sua casa. Fomos para um restaurante que nos tempos de juventude freqüentávamos, apesar de nunca termos nos encontrado. Não comeu carne, espantou-se um pouquinho quando lhe dei meu pedaço de mussarela de búfala. Visivelmente, sua fome era maior que a minha e eu sou dada a cuidar de meus afetos. Não comeu rúcula que lhe faria bem. Comeu um pouco rápido demais e eu, no meio daquela multidão barulhenta, não precisei esforçar-me para lidar com aquilo que seus olhos diziam e sua voz brincava ou vice-versa. Ele me achou muito exigente, estava mesmo disposto a saber de mim, a me observar de fato. Que bom, estou disposta a me fazer conhecer e a descobri-lo.
Daqui a uma semana ele fará novamente as malas para mais uma aventura como homem do mundo que é. Ele vai para o continente que mais desejo conhecer. Visitará as terras dos ancestrais daquele que talvez se torne a figura política mais importante das primeiras décadas do século XXI. Nela e também no seu entorno a humanidade nasceu.
Queria compartilhar com ele os odores, as melodias, os olhares, as emoções, as sensações desta sua nova incursão em lugares que nos parecem ainda muito exóticos e nada de efetivamente estranho ao que é humano guardam. Vou lhe pedir para que me leve na mala, creio que posso ajudá-lo a enfrentar a dor do mundo que conheço bem.
Se por acaso a visão da humanidade se esfacelando em guerra for algo dolorido demais para mim, sei que ele seria capaz de dissipar a escuridão de meu peito, porque ele já se assombrou diante de experiências semelhantes. Mesmo assustado ele tem a incrível capacidade de amar a vida e acreditar nela.
Creio que esta é a principal qualidade que amo neste homem: sua habilidade de amar e de nos revelar este amor, mesmo quando tudo parece estar perdido.
Quero que você saiba que veio parar aqui (dentro de minha mente e coração), porque eu te escolhi. Pode entrar e me fazer sorrir.
Frô, 06.22.08. 11.59 pm.