Blog EntryA cozinha de minha avóMay 4, '08 2:41 PM
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Julho era muito curto e só viajamos se algo de muito ruim acontecesse. Dezembro era o mês favorito, era irmão de janeiro e nos tempos de criança, ainda carregávamos fevereiro junto. Era permitido ‘comer’ uns dias de escola, por isso, nem dava bola se a professora reclamasse. Gostava da sala de aula, sentia saudades dos amigos e trazia um sotaque diferente. Tinha desculpas (das boas) pra tudo isso. Estava na Bahia:

         É longe professora, viagem cara, de dias....

         No ônibus já ia sentindo o cheiro.

Tem perfume de infância a cozinha de minha avó: carne de sol espetada sobre a brasa, outras penduradas por cima do fogão à lenha. Moscas rodeavam tudo. Um zumbido surdo, constante. Não punha reparo, só as mãozinhas ágeis davam conta da função: espantar as ditas pra fazer festa pro milho, amarelo bem claro, estourando, tostando minhas mãos gulosas. Os tomates cerejas da salada rala, rala como o verde da vida sertaneja, feijão de corda, farinha e arroz papa. À tarde: beiju, bolacha d’água e café torrado. A noite caía cedo e o tio mais moço, o mais lindo de todos, contava causos, acocorado no alpendre da casa de taipa.

Todos os dias eram uma festa sem fim: Acompanhar os passos largos de tio Pedro, seguindo determinado pra roça, feliz, com as chuvas de janeiro. Olhava os brotos de feijão e colhia umas bagas pro almoço. Conferia se a mandioca daria farinha farta pra pôr no silo que aguardava, pacientemente, na sala, até ficar de novo cheio até o teto. Silo que ouvia a festa de toda a vizinhança que corria pra Casa de farinha.

Era o tempo das rezas, dos maxixes, carurus e tinha procissão da Santa que se hospedava nas casas pra ouvir as ladainhas das mulheres, sentir o cheiro de vela, de bênção e de preces.

Ajudávamos como podíamos, eu, meus irmãos e primos. Os primos da roça riam de nós, os desajeitados primos da cidade. Não ligávamos, ríamos também e tio Pedro ria.

O verão trazia o riso pra roça, riso de menino brincando em açude, caindo de cavalo e levando surra de rabo de vaca. O verão trazia as estrelas, nas noites escuras, que ajudavam o tio a contar histórias de medo, de assombração, de meninas que tinham cabelos verdes, mortas por madrastas malvadas, de meninos pretos castigados até a morte, de vaqueiros corajosos que tinham salvado o mundo inteiro, de bichos falantes e inteligentes que protegiam seus donos, fosse bicho que voa, que anda, fosse bicho pequeno ou grande. Meu tio jurava que tudo era verdade:

 Tio Pedro é cristão, não jura em falso pra amedrontar menino!

            Boi Zebu era a comprovação de tudo. Ele tinha socorrido minha avó que se atrevera a espiar vaca que deu cria. Boi Zebu mugiu, urrou alto e chamou tio Pedro, enquanto minha avó, estirada no chão, cobria a cabeça com as mãos ensangüentadas. Tio Pedro ouviu boi Zebu de longe e entendeu e correu e boi Zebu já estava enfrentando a vaca, chifrando-a, protegendo minha avó, desmaiada no chão. Tio Pedro chegou e a vaca, ferida, afastava-se com seu bezerrinho, fula da vida com boi Zebu. Boi Zebu virou herói da família, a criançada toda o adorava: boi mansinho que havia salvo a vida da avó. O tio não o vendia por dinheiro nenhum do mundo. Boi Zebu era a prova das verdades de Tio Pedro.

         Minha avó não perdeu a coragem. Era mulher forte e cheirava a fumo e a água de pote. Vivia com a brasa na colher pra acender o pito, encostada na porta, nos dava pito, ao nos ver afundando no açude. Ríamos e fingíamos ser peixe. Ela ralhava mais forte, saíamos e a roupa secava, enquanto vencíamos ou perdíamos o concurso de quem conseguia tirar o bago inteiro do licuri. Minha avó nunca nos beijava, mas seu abraço nos dizia com a força do aperto:

 —Sejam bem- vindos, estávamos com saudades! Minha avó só lacrimejava seus olhos azuis, enrugados, com a fumaça do seu cigarro de palha e com a nossa partida: mulher nordestina não tem frescura, chora com a morte dos filhos e a partida é uma meia morte.

         No inverno os cheiros mudavam todos. Não havia o leite fresco embebendo imbu, açúcar cristal completando a coalhada, nunca encontrada nas prateleiras dos mercadinhos da minha cidade:

         Mãe, quero a coalhada com imbu da minha avó! Era a ladainha do retorno que a mãe aflita, não podia atender: onde o imbu da casa da minha avó?

        Na cozinha  de minha vó Antonina se encontra o nó de minhas lembranças, foi lá que eu deixei todos os cheiros preciosos do meu tempo de criança.

PS. As fotos são de tio Pedro hoje.


12 CommentsChronological   Reverse   Threaded
angelaescritora wrote on May 4, '08
Nada melhor do que comida de vó. Eu estou me preparando pro dia em que chegar neto!
E também arrumei de morar em sítio pra eles terem essas lembranças.
afroditefro wrote on May 4, '08
Nada melhor do que comida de vó. Eu estou me preparando pro dia em que chegar neto!
E também arrumei de morar em sítio pra eles terem essas lembranças.
Pode ter certeza que serão as melhores memórias da vida, nada é tão especial que as memórias de infância :)
abraços
filipeantunes wrote on May 4, '08
Belo texto. Ai essas recordações de infância, (sítios, gestos, aromas, sabores, relações), que nos impregnam a alma para sempre!
afroditefro wrote on May 4, '08
Belo texto. Ai essas recordações de infância, (sítios, gestos, aromas, sabores, relações), que nos impregnam a alma para sempre!
Querido Filipe
Sim e não sei se ocorre com vc, mas a mim a memória olfativa é a mais forte do meu tempo de infância. É dela que vem todas as demais: é o cheiro do cigarro de rolo de minha avó e de sua cozinha, do boi Zebu, da roça, de minha mãe, de meu tio Pedro e suas sandálias, do milho verde, de umbuzada que aguçam absolutamente todos os sentimentos que afloram a partir deles....
allthetruthaboutjb wrote on May 5, '08
Olha, estou aqui com lágrimas nos olhos, por dois motivos: primeiro, pelo seu texto tão belo, tão evocativo, dá para ver tudo acontecendo, criando e tecendo imagens da sua meninice.
Segundo (egoisticamente, tá?) por um motivo só meu: esse texto também me lembra das coias que só vim a entender e "curtir" mais tarde, na forma de memória, eveidentemente, quando nem minha idade e a família destroçada pelo orgulho de muitos, não me permitiu ter aquela ocasião de ter um afago nos momentos de dificuldade que tive de passar sozinho, com uma dor no coração, imensa.
Sei que talvez não se agradeçam os textos por serem produções pessoais e de publicação em um gesto individual de vontade.
No entanto, há de se notar que você, ao ler e reler seu coração, fez com que eu lesse e relesse o meu.
Ótima semana! Beijos!
afroditefro wrote on May 5, '08
No entanto, há de se notar que você, ao ler e reler seu coração, fez com que eu lesse e relesse o meu.
Ótima semana! Beijos!
Zé, querido, que bom que minhas memórias encontraram as suas e te emocionaram, já valeu a escrita delas.
beijos
ru666 wrote on May 5, '08
Frô, mais um grande texto seu... ele acabou me dando um pouco daquilo que não tive nas casas de minhas avós. A materna, mais rural, embora bem carioca, não conheci. A paterna era mais urbana. Eu morando em um pequeno município da grande São Paulo, ela em sampa.
Mas minha memória tem seus cheiros, sons, sabores e cores... e veio assim tudo de uma vez.
Beijos.
afroditefro wrote on May 5, '08
ru666 said
Mas minha memória tem seus cheiros, sons, sabores e cores... e veio assim tudo de uma vez.
Que bom meu querido.
Borges tem um conto que uma estátua ganha humanidade pelo olfato que faz com que ela desenvolva a memória, é por aí.
beijos
PS> a sua galáxia de hoje está no poetas lusófonos
ru666 wrote on May 5, '08
Que bom meu querido.
Borges tem um conto que uma estátua ganha humanidade pelo olfato que faz com que ela desenvolva a memória, é por aí.
beijos
PS> a sua galáxia de hoje está no poetas lusófonos
É... é essa coisa dos sentidos com a memória...
Obrigado, Frô, por ampliar essa galáxia.
Beijos.
afroditefro wrote on May 5, '08
ru666 said
Obrigado, Frô, por ampliar essa galáxia.
Não tem de que, ela merece ganhar o mundo :)
Acabei passando por aqui e dando rosto ao tio :)
stoleninc wrote on May 5, '08, edited on May 5, '08
Peço desculpa pela intromissão, mas na verdade, não resisto a dar-lhe os parabéns por tão belo poema de vida, a sua infância, e tal como já disseram, também eu quase senti o que contava, obrigada pela partilha!
afroditefro wrote on May 5, '08
Peço desculpa pela intromissão, mas na verdade, não resisto a dar-lhe os parabéns por tão belo poema de vida, a sua infância, e tal como já disseram, também eu quase senti o que contava, obrigada pela partilha!
Nossa, não há o que pedir desculpas, seu delicado comentário é o que almejamos quando soltamos esses nossos filhos no ciberspace.
Sê bem-vinda
Grande abraço
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